24-02-2010 14:12
Suicídio na Universidade do Minho
Estudantes homenageiam colega falecida
2010-02-24
Miguel Viana
Um ambiente de consternação foi o que se viveu ontem, ao fim do dia, na Igreja de São Vitor, em Braga.
No centro da nave da igreja repousava o caixão com o corpo da jovem Sílvia Tostões, que apareceu morta no sábado passado na casa onde residia com uma amiga, na zona de Gualtar.
As possíveis causas da morte da jovem, que apareceu enforcada, era o tema central das conversas tidas em grupo, pelos vários estudantes da Universidade do Minho.
Um amigo da jovem, que fez questão de não ser identificado, disse ao ‘Correio do Minho’ que a conhecia muito bem e que “não tenho a mínima ideia do que se passou. Dizem que andava triste, mas eu não dei por nada.”
Outra jovem do curso de medicina referiu que “ela foi normalmente às aulas durante a semana” e que nada fazia prever este desfecho.
A maior parte dos colegas presentes recordou a jovem como uma pessoa simpática e sociável, que gostava de ajudar os amigos. Era, também, activa na comunidade académica, participando, essencialmente, nas actividades do Coro Académico da Universidade do Minho.
Depois da missa de ontem, em que participaram também vários professores do curso de Medicina da Universidade do Minho, o corpo deve seguir hoje para os Açores, de onde a jovem era natural.
Alunos dizem que o curso é muito exigente
De acordo com o que o ‘Correio do Minho’ apurou junto da Escola de Ciências da Saúde, este é o segundo caso de suicídio de estudantes desde que se inicio o curso de medicina naquele estabelecimento de ensino.
“É verdade que há três anos um aluno deste curso cometeu um suicídio. Tinha sucessos académicos mas sofria de uma depressão endógena grave”, disse ao CM o presidente da Escola de Ciências da Saúde, Nuno Sousa. Embora as causas da morte da aluna ainda estejam por apurar, certo é que muitos alu-nos do curso dizem que as exi-gências da formação académica são muito elevadas.
Numa mensagem de correio electrónico (email) enviada por um estudante a vários colegas (e a que o CM teve acesso), lê-se que “é do conhecimento geral que este curso em particular exige muito dos alunos. Em 9 anos de existência do curso, já muitos foram os alunos que mudaram de escola, tendo concorrido para outros cursos de medicina. Outros desistiram mesmo do seu sonho de carreira médica.” A responsabilidade, diz, é, em muitos casos, da direcção da escola
Razões da desistência
Numa reflexão sobre as razões da desistência de muitos alunos do curso de medicina, o subs-critor da mensagem r efere que “apenas sabemos que apesar do apoio que a UM presta aos seus alunos, muitas são as queixas do curso, nomeadamente o excesso da carga horária.”
O mesmo aluno acrescenta que “têm que queimar muito as pestanas”.
Um outro aluno contactado pelo CM, de apelido Silva, afirmou que “apesar de gostar muito do curso, e de ser aquilo que eu quero seguir no futuro, temos uma carga horária muito grande, o que nos deixa muito pouco tempo livre.
Talvez por isso muitos fiquem pelo caminho. É um bocado desgastante.”
Os dois estudantes são unânimes em afirmar que muitas vezes só têm os fins-de-semana para estudar. “Tudo isto leva a uma ansiedade muito pronunciada, provocando alterações na vida pessoal, familiar e académica”, refere o autor da mensagem electrónica, que questiona:
“Porque é que há tantos alunos actualmente a chumbar cadeiras que antigamente tinham taxas de chumbo muito inferiores ou nulas?”.
Causas da morte estão por apurar
As causas da morte da aluna do curso de medicina ainda estão a ser apuradas, disse ao ‘Correio do Minho’, o presidente da Escola de Ciências da Saúde da Universidade do Minho.
Nuno Sousa lamentou a morte da aluna, e acrescentou que “sobre este caso concreto, ainda não tenho muitas informações.”
Ainda assim, o responsável pela Escola de Ciências da Saú-de revelou que a aluna em causa não tinha, actualmente, qualquer problema ao nível escolar.
“Neste caso trata-se de uma aluna que tinha tido insucesso académico (reprovou um ano), o que não se verificava actualmente”.
Questionado sobre se a aluna tinha dado algum sinal de depressão ou tristeza, Nuno Sousa afirmou que não se notou qualquer alteração no comportamento. “Se o tivéssemos notado, teríamos accionado mecanismos de apoio disponíveis na universidade. Os colegas também não deram conta de qualquer alteração no comportamento.”
Perante este facto, o mesmo responsável garantiu que tanto a universidade como a Escola de Ciências da Saúde, “têm estruturas que permitem dar apoio psicológico aos alunos e professores que o solicitarem, nomeadamente os que lidaram de perto com a aluna.”
Curso exigente
Em relação à exigência do curso de Medicina da UM, Nuno Sousa revelou que “é tão exigente como o que é ensinado noutras instituições de ensino superior. Relacionar as exigências com o que aconteceu à aluna é uma extrapolação que não pode nem deve ser feita.”
in "Correio do Minho"