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25-06-2010 10:39
Política
Mario Soares: "Sempre me perguntei: porquê eu? Talvez porque tive coragem nos momentos difíceis"
"Embora a política de esquerda esteja errada quase 100%, Mário Soares lutou contra a ditadura pela liberdade, e por isso ele merece ser reconhecido propriamente" - Jose Afonso

A política de hoje ficou de fora. Em dia de homenagem, impunha-se falar do seu percurso de vida. Mário Soares, que levou Portugal para a CEE, conta que o feito de que mais se orgulha é ter sido um "persistente lutador contra a ditadura". Jura que nunca se desiludiu com os portugueses. E perdoa-lhes o seu maior defeito: "o complexo de dizerem mal de si próprios"

Aqueles que decidiram homenageá-lo julgam-no o maior político português vivo. Concorda?

Nunca participei nessas competições. Fui um estudante medíocre, apesar de nunca ter perdido anos. Salvo por estar preso, às ordens da PIDE. Nunca tive esse complexo de ser o primeiro ou o maior. Considero-me um cidadão comum. Como político, visto que me assumo como tal, não obstante ter exercido várias profissões, quando tive cargos de grande responsabilidade, sempre me perguntei: porquê eu? Talvez porque não hesitei e tive coragem nos momentos difíceis.

Na sua opinião, quem foi então o maior estadista português?

É difícil de responder. Na I República, ocorrem-me, naturalmente: Afonso Costa, António José de Almeida, Álvaro de Castro… Durante os 48 anos da ditadura, não puderam manifestar-se grandes estadistas. Pergunta, certamente, se Salazar não foi um estadista? Respondo-lhe resolutamente: foi um ditador que destruiu as elites culturais, científicas e artísticas portuguesas e perseguiu todos aqueles que discordaram dele. Deixou-nos 13 anos de guerras coloniais e um país orgulhosamente só. Assim, todos os que podiam ter sido estadistas foram ceifados pela ditadura, que os condenou ao ostracismo e ao silêncio. Cito os exemplos de Jaime Cortesão, Bento Caraça, Mário de Azevedo Gomes, Abel Salazar, António Sérgio, entre outros, que tinham esse perfil… Quanto à nossa II República, apesar de ter chegado a maturidade, com 36 anos feitos, estamos muito próximos para poder ter uma imagem objectiva: Sá Carneiro, Salgado Zenha, Álvaro Cunhal, Mota Pinto foram, seguramente, políticos de grande estatura. Mas não tiveram tempo de ser estadistas...

Olhando para trás, qual o feito de que mais se orgulha? Por que decisão que tomou gostaria de ficar na história?

O que mais me orgulha é ter sido um persistente lutador contra a ditadura. Sofri por isso. Depois do 25 de Abril, a cujos capitães de Abril devemos a liberdade, dei alguns contributos em matéria de descolonização; para a normalização de uma democracia pluralista e ocidental; para a consolidação de uma República civilista e defensora dos direitos do homem; para a resolução das crises, financeiras e económicas, de 1976-78 e de 1983-85; para a integração de Portugal na CEE, hoje, União Europeia; para uma certa concepção da chefia do Estado, civilista e republicana. Não o digo com orgulho. Antes, com um certo sentido da relatividade das coisas e do dever cumprido. Quanto à história, por dever de ofício, sei quanto é mutável a avaliação que faz das políticas e dos políticos…

Qual o maior erro que cometeu na sua carreira política?

Seguramente, cometi muitos erros. Mas a análise deles não me compete a mim fazê-la. Pergunte aos historiadores e comentadores políticos… Interessam-me o presente e o futuro, enquanto por cá estiver. Quanto à História, sem ilusões, deixo-a aos historiadores. Não gosto de fazer análises retrospectivas dos meus comportamentos políticos. Assumo o que fiz, por inteiro, no melhor e no pior. E estou, e sempre estive, voltado para o futuro.

Alguma vez se sentiu desiludido com os portugueses?

Nunca. Se não confiasse no génio do povo português e não sentisse - aí sim - um grande orgulho de ser português, como poderia ter aguentado trinta e dois anos da minha vida consciente resistindo a prisões, discriminações, deportação e exílio? O povo português, no seu conjunto, é extraordinário, de sensatez, de argúcia e na sua própria coesão. Só tem, quanto a mim, um defeito maior: o complexo de dizer mal de si próprio e de julgar que pertence a um país periférico, pequeno e sem influência. Não é verdade! A nossa História, antiga e recente, comprova-o. Temos de sacudir esse complexo snob do "vencidos da vida", que vem desde o século XIX…

É longa a lista de pessoas que se cruzaram consigo e vão discursar hoje no Congresso de Arcos de Valdevez. Pedia-lhe que relatasse um episódio passado com um deles, que o tenha marcado.

Não é o momento. Não sou o responsável pela iniciativa de Arcos de Valdevez. Mas acolhi-a com muito gosto. Estou grato aos organizadores, ao Município de Arcos de Valdevez - e ao seu ilustre presidente, aos que lá trabalharam e aos amigos que nela quiseram participar e que tanto me honram. (Fonte: Diario de Noticias)



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