28-06-2010 12:56
Memória
A mulher que Saramago tentou apagar
por Luís Leal Miranda, Publicado em 26 de Junho de 2010 .
Quem é Isabel da Nóbrega, mulher a quem o Nobel dedicou quase toda uma bibliografia?
Isabel da Nóbrega, escritora e menina de boas famílias, foi a mulher à qual Saramago dedicou vários romances. Quando a relação terminou, as mensagens foram apagadas.
"A Pilar, como se dissesse água." É a dedicatória de "Caim", o último romance de José Saramago. O nome próprio da jornalista, viúva do Nobel português, é o único que aparece escrito em maiúsculas em todas as 182 páginas do polémico romance. Mas no lugar da espanhola que conquistou um lugar no coração de Saramago e nas primeiras páginas dos seus livros, esteve em tempos outra mulher: Isabel da Nóbrega.
Escritora e cronista, Isabel esteve ao lado de Saramago de 1968 a 1986. Nunca se casaram, por vontade dela. E nunca mais se falaram depois da separação, por vontade dele. As dedicatórias dos livros editados enquanto estava na companhia de Isabel (ver caixa) foram apagadas. E, mais tarde, passou a ser Pilar a mulher a quem se agradecia o amor, a inspiração e até a vida.
Apesar desta pequena iniciativa individual de revisionismo histórico, há quem garanta que não há José Saramago, o escritor, sem Isabel da Nóbrega, a menina de boas famílias que gostava de livros. "Foi a Isabel, que era uma mulher da alta sociedade, quem lhe abriu imensas portas", defendeu o escritor e amigo Fernando Dacosta à revista "Sábado". Foi a cronista e autora de "Viver com os Outros" (Prémio Camilo Castelo Branco, 1964) que tornou Saramago numa figura aceite na elite intelectual portuguesa.
Isabel cresceu na Estrela, em Lisboa, e conviveu com a alta sociedade do Estoril, uma burguesia pouco dada a leituras que enchia a jovem rebelde (para os padrões da Linha) de tédio. Sozinha em casa, começa a escrever para combater a solidão - está para breve a publicação de um novo romance. Notabilizou-se como cronista de rádio e imprensa, fundou "A Capital" e assinou mais de 3 mil crónicas divididas por vários formatos e publicações diferentes.
O rapaz das badanas Isabel da Nóbrega marcou a vida de Saramago, "quer ele queira quer não". A expressão é usada repetidamente pela própria durante a última entrevista que concedeu, em Janeiro do ano passado, para a revista "Tabu", do semanário "Sol". Quer Saramago queira, quer não, foi ela quem ajudou o escritor a escolher o nome "Blimunda" do "Memorial do Convento"; que o levou pela primeira vez ao Convento de Mafra; que o pôs a escrever as crónicas do jornal "A Capital" que o lançariam no jornalismo. "Quer ele queira quer não, estou na vida dele assim", conclui.
José e Isabel conheceram-se em 1968, altura em que o escritor assinava os textos das badanas dos livros da Editorial Estúdios Cor. Quando foi preciso alguém para fazer um suplemento de Verão no jornal "A Capital", Isabel recomendou ao director daquele vespertino "o rapaz das badanas".
"Ele tinha sempre um olhar de quem estava a sofrer", lembrou a escritora nessa última entrevista, "em inglês há uma expressão muito engraçada para esse olhar: pleading eyes".
Sobre o desaparecimento do seu nome das dedicatórias, Nóbrega mostra-se descontente - "uma atitude que não era preciso tomar" - mas conformada: "Quem tiver a primeira edição lê."
O escritor pronunciou-se por várias vezes sobre o assunto, garantindo que as dedicatórias fizeram sentido na altura em que essas edições foram publicadas. E essas edições, já esgotadas, permanecem em sintonia com as inclinações amorosas da altura.
Pilar, parede mestra A história de Saramago e Pilar del Río tem sido repetida nesta última semana com mais ou menos lirismo: os dois conheceram-se quando a jornalista veio a Lisboa, trocam correspondência e encontram-se em Sevilha às 16h00 do fuso horário espanhol. E é por isso que na casa do casal em Lanzarote todos os relógios marcam as quatro da tarde. Saramago e Pilar casaram-se em 1988, com 27 anos entre eles (ele tinha 65, ela 38) e uma mulher para trás.
in I